
Quando o camarada-metido-a-falar-bem resolve ser chique, quase sempre se estrepa.
Ultimamente temos ouvido uma discussão que ilustra bem isso. É com a expressão “a nível de”, usada larga e livremente nos corredores da inteligenza brasileira, nos palácios, na televisão, nas academias principalmente, e até nas casas de ensino em que deveriam estimular as boas maneiras no falar de seus alunos e professores.
(O problema verdadeiro é que ninguém vai ficar esperando as pessoas escolherem palavras no meio de um bate-papo ou mesmo numa apresentação pública quando elas querem se expressar. Neste caso, o camarada-falante utiliza uma moeda de troca: uma palavra vale por outra palavra; e ele escolhe aquela mais usual ou a primeira que vem à cabeça: pelo menos é assim que ele ouve dizer, às vezes na televisão, às vezes da boca de um professor ou até mesmo de uma gente-fina por aí. Deve ser chique, pensa ele.)
Não é que o famigerado “a nível de” parece ser a preferida entre várias possibilidades existentes de expressão. O camarada-que-pensa-que-vai-abafar lasca então “A nível de Uberlândia”, “a nível de empresa”, “a nível de Congresso” – nos textos ainda encontramos com crase (`): “ à nível de língua portuguesa”, “à nível de pobreza”.
O que aconteceu aqui? O camarada-interlocutor-de-meia-tigela teria algumas outras chances de acertar, se escolhesse o advérbio “localmente” por exemplo (tem gente achando que “localmente” não existe, mas está correto o advérbio e serve para coisas locais), ou simplesmente ele poderia escolher uma preposição “em Uberlândia”. Também seria boa fala “comercialmente”, “no comércio”; “na língua”, “de acordo com a língua”, “consoante a língua”, “conforme…”.
Reparou como são várias as possibilidades?
Quem fica falando ou escrevendo “a nível de” mostra o seu pouco conhecimento da língua e o seu baixo “nível” cultural – aqui sim bom português. Porque “nível” é boa moeda no campo das grandezas ou das intensidades; nas referências de profundidade fica claro: “no nível do mar”; assim também em “do mesmo nível cultural”, “O furacão Cícero desceu ao nível ‘Um’ nas proximidades de Roma”.
E note bem: se for utilizado o artigo, ele será masculino, como em “ao nível”, “no nível”, porque “nível” é substantivo masculino.
Falar e escrever bem não tem magia; é muita malhação mesmo.
Portanto, “camaradas-saradinhos!” e “camaradas-saradonas!”, vamos aos exercícios da gramática!